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  • Ana Alencar

Maio de 2020 - Pela porta de vidro do hospital

Escrevi este texto no dia 15/05/2020, meu pai estava internado e eu estava acompanhando ele e refletindo, escrevi mas não publiquei, então aqui está


Pela porta de vidro do hospital



Do lado de cá pessoas doentes, há de tudo um pouco por aqui, crise de diabetes, hipertensão, coração, dor física, dor na alma, falta de ar, de um lado alguns em seu leito de morte, do outro alguns no leito da cura. Para alguns a morte é remédio, as dores cessam os olhos vem a luz Branca infinita, último suspiro e paz, para outro a luta continua, alguns cansados de lutar outros querendo mais chance de lutar.

Do outro lado a vida que nasce nasce na maternidade, bebês e mães nascendo a todo momento.

E ali do outro lado do vidro, o ar fresco da rua, as arvores trocando suas folhas e em um final de dia nublado de outono e cá estou eu reflito, respiro (de mascara claro), o corona vírus está por ai, sabe-se lá por onde.

Vejo meu pai que luta contra as doenças de uma vida sem cuidados, vejo o quanto ele é forte e frágil, me olho e vejo o quanto eu sou forte e frágil.

E estamos aqui esperado, esperando, eu aproveito o tempo e reflito, penso, observo em minha volta, e agradeço, agradeço por todos os caminhos que me levaram ate aqui, agradeço a saúde e celebro a vida.

Observo a vida ali do outro lado do vidro, as folhas caindo secas no chão e isso me faz perceber que as folhas morrem para renascer, e preciso morrer para nascer, para ficar mais forte é assim a vida se renova.

Do lado de cá o mesmo ciclo, morte e vida se cruzam, tristezas e alegrias, amor, dor e esperança que se renova a cada resultado de melhora no exame, a cada palavra confortante dos médicos que por aqui parecem anjos tentando ajudar, salvar e trazer um conforto a cada enfermo.


Nesse momento agradeço e reforço minhas convicções de que a vida é um sopro.

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